quinta-feira, 14 de julho de 2011

Colorida e Bela

Um dia eu soube escrever e o fiz. Sobre euforias, tristeza, música e paixão, mas, nunca sobre vazio. Hoje, deveria deixar isso aqui em branco, preenchido ficticiamente por flash de sonhos perdidos, por vontades inconstantes ou por tempos que não voltam mais.

Às vezes o passado me assombra, em outras - e essas são a maioria- ele me faz sorrir. Pouco a pouco abri um vão - uma dessas falésias tectônicas moldadas ao longo de bilhões de anos - para criar este vazio, esta fissura. E, assim, este aqui esbranquiçou-se e as desventuras aventuraram-se por outros mundos.

Mas, fez-se a luz. Me reafeiçoei às linhas vazias, ao buraco branco dos dias, da minha poesia, me lembrei porque outrora decidi pelo esquecimento das palavras, dos pensamentos. Refleti sobre o porquê de não mais levar-me pela inconstância das consoantes e das vogais, das frases do fundo de côr, dos acentos, das vírgulas, dos sim e dos não, dos poréns e desses parágrafos com tanto significado. Finalmente percebi que todos esses dias foram preenchidos por uma coisa tão maior que explicaria toda fenda em qualquer destino mal traçado: minha vida foi preenchida por amor de uma forma tão pura e constante que, caso o seu olho enxergue momentos de ausência eu vejo - e posso até sentir - explosões coloridas de felicidade e corações flutuando pelo céu.

Eu, um dia, preferi a impensável constância do meu amor a das minhas letras. E o meu vazio-cheio se formou e permetuou-se de um jeito tão confuso e intrínseco que virou inimaginável. Não ter fórmula, certo, errado, poesia ou pesadelos, sim ou não - música muitas vezes aparece, mas, essa é outra questão. Existem apenas os dias do amanhã e o meu retorno.

O vazio continua cheio, o cheio é cheio e ponto final. A música é certa; a aventura, também. Porém, por vazio ser e "abranquecido"* estar, não me atraverei a compor mais nenhuma linha e deixarei o futuro destes parágrafos branco. Branco, claro e puro como deve ser toda a boa incerteza da vida.


*branco e aquecido



[Colorida e Bela - Pedro Mariano]

2 comentários:

Li disse...

O vazio é o meio de transporte pra quem tem coração cheio.

Estava pensando nessas duas músicas essa semana, embora eu esteja na fase do "Cheio de vazios que transbordam
seus sentidos pelo meio" e do "sorri de menos e assusta... precisa abrir a janela e ver".

Saudade dos seus textos, mas não serei egoísta, entendo perfeitamente seus motivos, também ajo assim, então, por mim, em solidariedade, pode não voltar nunca mais por aqui. É uma ordem. :)

Anônimo disse...

Relendo, lembrei de uma frase da Virgínia. "estou crescendo, estou crescendo, estou perdendo algumas ilusões. talvez pra adquirir outras". É esse processo de vazio e preenchimento que tem sondado e assombrado nossas vidas. Ouvi a palavra vazio em todas as postagens do mundo essa semana. Devo estar enlouquecendo. Espero não parar no fundo de um rio, como tal autora.

Lila